Um amor impossível – Capítulo III

III.

Hoje escuto The Cure, Lullaby.  Lembro quem fui. Lembro quem queria ser. Lembro meu corpo branco, as sardas no ombro, não era magra, não era gorda. Era gostosa. Hoje não estou assim, deixei a vida pesar e os quilos acumularem. Me lembro deitada no chão do meu quarto, na casa da minha mãe. Trancada, sem poder sair. Ouvia música e chorava. Fazia muito tempo que não chorava, faziam 30 anos. Chorei muito quando vi sua foto, mãe.

Hoje sinto falta de ar, não é a pandemia que come o mundo. É alergia, uma puta crise alérgica. Igual a que você sempre teve e eu nunca tive. É a insatisfação do caminho que nossas vidas tomou? Acredito que sim, a diferença é que minha vida não é a eterna infelicidade que se tornou a sua. Eu busco meu espaço. Eu aprendi a dar limites.

Mãe, o primeiro limite que quero dar hoje é em sua memória. Eu não sou culpada. Eu não fui culpada.

Por muitos anos a criatividade foi um impulso vibrante na minha solidão. Fui uma criança esquecida e uma adolescente que gritava por liberdade, até que com 18 anos dei um basta e reivindiquei meu espaço e na faculdade de arquitetura iniciei a liberação do meu espirito. Fumei, bebi, dancei até cair. Raspei a cabeça, pintei o cabelo de vermelho. Escrevia e pintava, criava arte e uma vida que me tinham negado. Trepei. Noites de sexo e álcool. Era o principio do que desejava. Um mundo de criação histérica em uma vida interrompida.

Hoje meu corpo não aguenta nem mais um cigarro. Puta falta de ar e que vontade de fumar!

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