Vírus da felicidade

Virus da felicidadeJosé Mindlin foi advogado, repórter, escritor, empresário e importante bibliófilo brasileiro, filho de imigrantes judeus ucranianos, começou a trabalhar muito cedo, com 16 anos, como repórter num importante jornal de São Paulo. Inquieto, formou-se em direito e advogou por um certo tempo, até que fundou a Metal Leve, empresa de sucesso e referencia no Brasil no setor de peças para o mercado automobilístico. Ao se aposentar, José Mindlin se dedica a colecionar livros antiguos e raros e chega a ter a maior biblioteca pessoal do Brasil. Essa paixão por livros o aproxima da escrita e não a toa, em 2006 ele é eleito Membro da Academia Brasileira de Letras. Também em 2006, ele generosamente doa seus mais de 40mil livros a Biblioteca da Universidade de São Paulo, que passa a ser chamada Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Em 2010 falece aos 95 anos de falência múltipla dos órgãos. Conto um pouco da sua história para que meu leitor possa se orientar, caso não o conheça.

José Mindlin tinha, como objetivo pessoal, colocar o virus da leitura nas pessoas. Eu não o conheci e também não sabia quem era este personagem da literatura e história empresarial brasileira, busquei saber quem era essa figura, justamente quando me contaram qual era o seu objetivo pessoal. Eu tenho esse virus, será que de alguma forma foi ele o responsável por isso? Os virus são assim, um pega e passa para outro, que vai para outro e mais outro e quando percebemos, milhares de pessoas estão infectadas. Sei que tenho o virus da leitura, da aquisição de livros e da escrita. Gostaria de um dia ser escritora, e seria o maior luxo da minha vida, se pudesse viver da minha escrita, economicamente falando. Mas fato é que, com escrever e ser lida, já me sinto iluminada e, se de alguma forma posso deixar um grão de aprendizado, conhecimento, curiosidade ou emoção ao meu leitor estarei completamente feliz.

Por muitos anos busquei a felicidade, em coisas, pessoas e comidas. Sem perceber a vida me levou por mais de 20 anos a trabalhar com o papel, com as cores, com a arte. Durante este período, frequentei gráficas, senti o calor das impressoras, o cheiro de química das tintas e vi nascer projetos gráficos de todos os tipos, embalagens, folhetos, mas sempre senti o temblor no corpo ao trazer ao mundo um livro, uma revista ou até mesmo um relatório de empresas. Meu último projeto foi em 2011, numa das principais gráficas do Brasil, quando fui responsável pela impressão de um livro de arte. Recordo como se fosse hoje, a emoção de entrar naquela gráfica e ajudar a parir aquele filho. Guardei por anos esse filho na minha prateleira, até que ao mudar de País, me vi obrigada a me desfazer dele. Esse livro representava a paixão pelo papel, pela tinta, pela arte, pela escrita. Mesmo que minha parte fosse apenas a supervisão gráfica, garantindo o controle de cores e qualidade final do trabalho, eu acolhi a cada trabalho com amor maternal, como se fosse de principio ao fim, meu, só meu. Este trabalho ainda representou um momento forte da minha vida, envolto em tristeza e valentia. Tristeza pois deixava a produção gráfica, que por quase 15 anos era o que tinha me feito conhecida no mercado gráfico e do design carioca. E de valentia, pois sem enxergar de um olho, por um falho médico, viajei para o nordeste brasileiro para acompanhar o que seria o mais lindo trabalho da minha história como produtora gráfica. Ninguém sabia que tinha um olho quase morto, ninguém sabia que aquele trabalho representava o fim de uma carreira e inicio de outra. A porta à sala que eu conhecia e transitava com tanta facilidade se fechava e abria uma outra que eu desconhecia e não sabia onde me levaria. De produtora passei a vender. Não vendia o desconhecido. Não, a vida me levou a vender cadernos, agendas e blocos. Material para que as pessoas pudessem escrever. Eu seguia trabalhando com papel, com cores, com tinta, com projetos gráficos e com a escrita, não impressa, mas permitida. O tempo passou e uma década depois a vida me leva a outra mudança, outra porta que se fecha e outra que se abre. Uma mudança de País e de trabalho. Hoje, completo 3 anos em outro País, por esse tempo estive longe de gráficas e de tudo o que me moveu por tanto tempo. Entrei em depressão e, para sair da depressão, tive que olhar para dentro e para meu passado. Procurei entender que na minha vida não estava bom e o que tinha que mudra. Percebi que o erro foi me afastar do que me alimenta para viver, o papel, as palavras ditas em tinta de impressora, o cheiro do livro velho e do livro novo. Voltei a ler e junto com a leitura agora veio o que era apenas uma memória da infância, a escrita. O vírus da leitura e escrita foi minha salvação, me salvou de uma depressão grave e recurrente. Nem todos os virus são ruins. O vírus da leitura e da escrita me trouxe a felicidade que por tantos anos busquei em outros lugares.

Hoje completo 3 anos em um novo País. Jamais imaginei que viviría numa cidade mágica no velho continente. Não é o viver aqui que me traz a felicidade, mas aqui descobri simplicidades do viver que não tinha tempo para perceber quando vivia numa grande metrópole brasileira. Hoje, vivo numa cidade que é menor que o bairro que vivia. Demorei muito para perceber que estava doente, que tinha a loucura das grandes metrópoles metida no meu corpo. Não sabia apreciar a vista da janela, não sabia amar o canto matinal do galo e nem o silencio de uma noite estrelada. Hoje, nesta fresca manhã outonal, estou aqui, no meu espaço desordenado pelos tantos livros, todos em um idioma que jamais pensei que fosse entender e me sinto mais viva e feliz que nunca. Enquanto escrevo escuto “Rue Saint-Vicent (Rose blanche) na voz de Yves Montand”  e me sinto mais e mais feliz.  Por muitos anos estive envolta por um mundo que não era o meu, estava ali, mas não me sentia plena e tampouco sabia o que tinha que fazer para me sentir. Essa mesma felicidade que tenho aqui, posso ter em qualquer lugar do mundo, ela está aqui, dentro de mim, ao alcance da minha mão e dos meus olhos. Ainda não enxergo bem, o olho não ficou perfeito, mas nada é perfeito e aprender a viver com a imperfeição da vida é importante. Hoje, quando quero apenas sentir o momento, tiro os óculos que levo até para dormir, tal como fiz agora. Deixo que as palavras passem por meu corpo e cheguem a esse papel, elas tem sua energia e vida, eu sou apenas o fio condutor para que cheguem a outras pessoas.  Ah o virus da leitura! Ah, o virus da escrita! Ah o virus da felicidade!

 

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