BEDA#7 – homenagem ao meu pai.

Luiz y TiaoNo BEDA#6 eu contei para vocês quando deixei o minimalismo, logo após a morte do meu pai em 2013. Nossa relação foi muito difícil, eu tinha 3 anos quando ele e minha mãe se separaram e não conseguimos criar a conexão entre pai e filha. Com a morte do meu pai, causada por um trágico acidente, a nossa aproximação nestes últimos dias de sua vida, e depois, com o fechamento do seu apartamento, revivi muitos dramas e perdi o foco no minimalismo.

Neste post quero fazer uma homenagem ao homem que foi meu pai, o pai que eu sempre quis ter, mas que de alguma forma não conseguimos nos conectar, não conseguimos manter uma relação tranquila e saudável. Havia medo, vergonha e pouca, ou quase nenhuma, comunicação.  Sempre me perguntava como seria nossa vida quando ele dependesse de minha ajuda, quando estivesse velhinho e tivesse que ser cuidado por um parente. Ele tinha muitos amigos espalhados por todos os cantos que viajava, tinha uma família relativamente próxima, porém não imaginava que quisesse viver com sua família, uma vez lhe perguntei sobre este momento da vida, como faríamos. Ele respondeu: “ – Me ponha numa casa de idosos bem divertida.”  – E a conversa acabou aqui, naquele dia não conseguimos mais conversar, este nem nenhum outro assunto.

O dia que meu pai sofreu o acidente eu tinha uma licitação pública. Era uma venda muito importante para mim, dentro do cliente e da minha empresa, era um projeto especial e estrategicamente muito importante para conquistarmos outras negociações. Uma licitação funciona quase como um jogo de pôquer, atenção ao comportamento de todos é fundamental e saber blefar para dar ou não o lance correto na hora certa. O fato é que eu nunca fui boa em jogos, em especial no pôquer, Durante a licitação, eu estava nervosa e minha tensão aumentava muito, tirando minha concentração a cada vez que, insistentemente um número estranho, de outra Cidade do Rio de Janeiro, me chamava.. Não podia desligar o telefone, porque a negociação podia seguir por um caminho diferente e teria que chamar minha diretoria pedindo alguma autorização especial. Mas também não podia atender aquele número, não naquele momento. Por fim, a etapa de preços acabou e fui declarada a vencedora. A etapa seguinte era seguir com a verificação de documentos de cada empresa participante do processo. Como tinha certeza absoluta que meus documentos estavam corretos, pedi licença para ver o que se tratava aquela chamada e sai da sala. Voltei pálida, sem ar e informando que meu pai estava numa UTI a 115km da Capital, que naquela hora significariam umas 4 horas de engarrafamento. Preocupados com a situação, o cliente finalizou o processo com agilidade e me liberou, disseram que deveria correr para ver meu pai e dar-lhe a boa notícia que era a ganhadora de uma licitação de alto valor.

Quando cheguei no hospital, o susto foi grande. Meu pai estava muito machucado. Não tínhamos, ainda, o laudo de todos os problemas causados pelo acidente. Eu não sabia com quem ele estava e nem onde. Sabia que não estava dirigindo e que não queria que me chamassem, ele tinha dito para não me incomodar que estava trabalhando e a noite teria que cuidar do neto dele (sim ele falou assim, as enfermeiras me contaram). Porém como ele já tinha 77 anos e estava muito machucado, não poderia ficar no hospital só, muito menos sair dali, por fim conseguiram convencer que ele desse meu número. A primeira noite de hospital foi dura, ele estava resistindo a ficar ali e tiveram que atar-lo a cama. O segundo dia a situação ficou tensa, pois eu não sabia o que tinha meu pai, que estava só numa sala de emergência, numa cidade do interior do Rio de Janeiro, tive que brigar com médicos, administrativos e enfermeiros para conseguir que meu pai fosse levado de ambulância para outro hospital, na Capital.  Foi a pior viagem de minha vida, dentro da ambulância, vendo meu pai gritar de dor, não sabia o que fazer, só consegui segurar sua mão, dizer que o amava e que já estávamos chegando ao hospital. Ao chegar, as 3 hora da manhã, meu pai foi direto para a UTI, enquanto eu fazia o procedimento de entrada dele no hospital.

Assim que o médico de plantão me viu, perguntou o que tinha se passado com meu pai pois ele estava muito machucado e, o médico responsável pelo transporte dele para aquele hospital não tinha deixado muitas informações, apenas alguns laudos do outro hospital. Lhe expliquei o que sabia sobre o acidente, lhe contei minha briga por saber o estado real do meu pai no hospital de Rio Bonito (local do acidente), e que não me disseram nada. Contei como foi a viagem na ambulância. E o médico com uma cara muito séria disse:

“Seu pai é um homem muito forte, não é qualquer um que sobrevive a um acidente como este e se mantém vivo. De momento posso dizer que ele está muito ferido, tem lesões consideráveis, mas temos que fazer outros exames para saber o quadro por completo.”

Insisti para que o médico me falasse o que tinha meu pai.

“De momento não tenho seu quadro completo, temos que fazer provas. Segundo o outro hospital, tem uma vértebra da coluna cervical fraturada, nariz fraturado, um coagulo na cabeça.  Agora vamos cuidar dele. Vá para casa descansar, amanhã quando chegar teremos como dar mais informações.”

Fui para casa, não dormi. Nos dias seguintes visitava meu pai e sempre buscava aos médicos ansiosa por novidades. Disseram que seu quadro ela o inicial, não sabiam como seria a recuperação dele, com a coluna, ele ficava dia-a-dia atado a cama e gritando que não queria estar ali, que ele não devia estar preso, que não tinha feito maldades para estar ali. Ele não compreendia e eu apenas chorava.

Em seu segundo dia no hospital do Rio de Janeiro, levei algumas pessoas para ele ver e se animar, uma vez que era um domingo. Fui a primeira a entrar na UTI, e percebi que ele estava mais agitado que os outros dias. Ele não me reconheceu, olhou pra mim e disse:  – Moça, me tira daqui, não sou mau, não fiz nada.  Não consegui falar, só chorar. A enfermeira perguntou para ele quem era Roseana, que Roseana iria visitar ele naquele dia e que ficaria muito triste em ver ele nervoso. Ele respondeu, que Roseana era a filha dele. Não era pessoal, ele não tinha se esquecido de mim, ele só não me reconhecia fisicamente, porque alguma parte de seu cérebro estava sendo muito pressionada pelo coágulo. Eu tinha mais preocupação com a sua cabeça, com este coágulo, do que com a coluna. Sei que um trauma na coluna podia ser muito duro para ele que era tão ativo e animado, mas eu pensava que seria pior estar com sua mente tão elétrica e alegre debilitada. Hoje, depois de quase 5 anos de sua morte, eu penso que qualquer situação destas seria muito para ele e para a família.

Na terça-feira, dia 22, ele estava tranquilo. As médicas tinham soltado ele da cama, estava sentado, tinham trocado o protetor da coluna por um colar de cervical, mais confortável que o anterior que prendia toda a cabeça. Ele estava sentado e ía tomar uma sopa, para começar a se alimentar para deixar, pouco a pouco o soro. Fiquei tão contente! Falei em seu ouvido: – Pai, te amo tanto, te perdoo! Agora temos a oportunidade de começar nossas vidas, esquecendo todo o passado. Quando você sair daqui vai ficar lá em casa, vou te levar para passear todos os dias no Bosque e sentar no canto que você gosta para ver o céu e o verde da mata. Você , vai ver seu neto crescer e estaremos juntos como sempre quis. – Ele não respondeu nada. Mas essa noite, quando estava dormindo às 4 horas da manhã, senti ele no meu quarto. Sentou na beira da minha cama, me acariciou, disse que partia, que lamentava, que me amava.

No dia 23, à 10 horas quando me ligaram do hospital pedindo que fosse para lá, eu já sabia o que me esperava. Não sei dizer qual foi o pior momento; se os que estive com ele no hospital, o final, quando tive que providenciar papéis para que fosse cremado, ou depois, quando passei mais de 1 mês pra fechar toda sua vida, inclusive o seu apartamento.

Esqueci o minimalismo, vivia cada lembrança com suas dores e alegrias, vivia cada coisa, uma a uma, por vez e assim segui, como anestesiada, acreditando que a cada sábado meu pai iria me ligar, como fazia algumas vezes, para saber como estava seu neto. Ele nunca mais ligou e eu fui às compras para esquecer a dor que estava dentro de mim. Fiz obras no apartamento, meu pai sempre gostou de fazer obras. Troquei de carro, meu pai sempre trocou de carro de 2 em 2 anos. Comprei roupas, para ficar mais bonita, meu pai sempre estava bonito, perfumado. O minimalismo não supria meu pai, nem as compras, mas eu tinha a falsa percepção de que aliviava a dor e o vazio que eu sentia.

Seu inventário durou 5 anos, cada movimento deste inventário suponia, para mim, uma dor brutal. Briga por herança, briga por um dinheiro que não é nosso, não foi construído por nós, se agora temos direito a ganhar algo, que seja feito de forma suave, sutil, pois esse dinheiro representa uma pessoa que se foi e não tem como voltar.

Pai, eu te amo, como sinto sua falta!

 

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